Os problemas com o sono são cada vez mais comuns. Mas, na realidade, o que se sabe sobre o transtorno do sono? Afinal, o que é considerado um transtorno de sono?

O transtorno do sono é uma realidade da população geral, cuja queixa é realizada não só aos médicos, como também a outros profissionais de saúde. Está relacionado com a dificuldade de poder dormir ou manter-se em vigília.

Logo, estas situações associadas às alterações do normal padrão de sono têm um impacto negativo no estado de ânimo do indivíduo e afetam os processos cognitivos como a atenção, a concentração, a memória e o tempo de reação. Para além disso, tem também consequências a nível fisiológico. Os indivíduos que sofrem de transtornos de sono tem maiores dificuldades em regular a temperatura corporal, a pressão arterial, o batimento cardíaco e o sistema imune.  Adicionalmente, há também associação com maior risco de doenças, nomeadamente diabetes e doenças cardiovasculares.

Causas dos transtornos de sono

O transtorno do sono pode dever-se a uma patologia, mas também ao estilo de vida e a condições relacionadas com as atividades profissionais.

Quais as patologias que podem levar aos transtornos de sono?

Algumas doenças, síndromes ou condições fisiológicas podem alterar o sono.  Por exemplo, o cancro, a enxaqueca, a depressão, a fibromialgia ou a gravidez são conhecidas causas de alteração do normal padrão de sono. Mas, devo realçar que, há certas condições clínicas como alguns quadros associados à dor crónica, em que não se percebe se o transtorno do sono aparece primeiro ou é uma consequência dessa mesma condição. Portanto, esta situação é uma questão científica ainda por resolver.

Todos os doentes com estas situações vão sofrer transtornos de sono?

É de ressalvar que nem todos os indivíduos apresentam a mesma sintomatologia mesmo sofrendo de condições iguais ou semelhantes. Por exemplo, estar grávida pode alterar o sono a algumas mulheres. No entanto, outras não sofrem qualquer alteração.

Estilo de vida e transtornos de sono

Quando menciono que o estilo de vida pode causar problemas de sono, refiro-me à higiene de sono.

Há numerosos fatores a ter em linha de conta: o número de horas que dorme, como é a sua alimentação, se faz exercício físico, como é o contexto quando vai dormir, onde dorme, etc. Logo, analisar todos estes fatores pode ajudar  a entender a qualidade e quantidade de sono que está a ter.

Vida profissional e perturbações de sono

Outros fatores que é obrigatório analisar estão associados à atividade profissional. Em primeiro lugar, há que saber se o indivíduo tem horários rotativos de turno, se trabalha em regime diurno e/ou noturno, de forma diária, semanal ou mensal, se faz horas extras de forma contínua. Assim, estas entre outras variáveis podem pôr em causa o normal padrão de sono.

problemas com o sono

Problemas com o sono: encontrar a causa da perturbação de sono

O maior desafio que encara o profissional de saúde é conseguir identificar o motivo do transtorno do sono. Em primeiro lugar, porque são múltiplas as causas. Por outro lado, porque o paciente tem dificuldade em descrever de forma precisa o que lhe acontece durante o sono.

Por norma, o profissional de saúde deve seguir um critério e realizar uma avaliação continua para poder propor hipóteses, que poderão ser confirmadas ou rejeitadas.

Mas, o lado positivo é que o transtorno do sono pode ser tratado, sempre que se realize o correto diagnóstico e, portanto, uma intervenção adequada.

Classificação dos transtornos de sono

Com o propósito de poder compreender o transtorno do sono, têm sido usadas diversas classificações ao longo do tempo. Algumas delas, focam-se em perceber se se trata de uma doença propriamente dita ou de sintomas de outra situação fisiológica ou patologia.

Na literatura científica existem três sistemas de classificação. A saber:

(a) a Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono – International Classification of Sleep Disorders ou ICSD abreviado – (American Sleep Disorders Association, 1997), cuja classificação é usada pelos profissionais da medicina do sono.

(b) o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM abreviado – (American Psychiatry Association, 1994), que é utilizado principalmente pelos psicólogos. A última versão é a quinta, publicada em maio de 2013. Portanto, é citada como DSM-V.

(c) a Classificação Internacional de Doenças – International Classification of Diseases ou ICD abreviado – (World Health Organization, 1997): classificação utilizada por médicos em geral. A última versão é a décima, portanto é referida como ICD10.

Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono

A Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (American Sleep Disorders Association, 1997) agrupou a perturbação do sono em 4 categorias principais:

  • Dyssomnia que abrange problemas para conciliar e manter o sono e as perturbações de sonolência excessiva, ou seja, maior tendência para o sono.
  • Parasomnias está relacionado com comportamentos não associados ao sono ou não usuais, como por exemplo, falar enquanto dorme, sonambulismo, terror noturno, sobressaltos na cama ou cãibras noturnas, bruxismo, morte súbita inexplicada noturna ou quando um indivíduo acorda com episódios de confusão.
  • Distúrbios do sono associado a transtorno médico-psiquiátrico como aqueles associados a doenças mentais. Logo, são exemplos, as alterações de sono associadas  às psicoses, aos transtornos de humor e de ansiedade ou às doenças neurológicas (ex: demências, mal de Parkinson, insónia familiar fatal, epilepsia relacionada ao sono, cefaleia relacionada ao sono). Além desses, são também importantes os distúrbios associados a problemas médicos como doenças do sistema cardiovascular, respiratório e digestivo.
  • Distúrbios do sono propostos, que ainda não podem ser classificados como tal, devido à inexistência de suficiente evidência científica. São exemplos destes: o sono curto, o sono longo e o síndrome de engasgue no sono.

 

Classificação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais

O DSM-V, em relação à suas anteriores versões, propôs algumas alterações. Assim, passou a denominar transtornos do sono como transtornos do sono-vigília.

Além disso, a narcolepsia passa a ser um transtorno específico pois foi descoberto que é uma consequência de uma deficiência em hipocretina – um neurotransmissor responsável da regulação da vigília, apetite e excitação.

Adicionalmente, a nova classificação, eliminou as categorias de transtorno do sono relacionado com outro transtorno mental ou com outra condição médica. Por outro lado, incluíram transtornos do sono relacionados com a respiração e amplificaram as subcategorias dos transtornos do ritmo circadiano. Além disso, o jet-lag foi eliminado como transtorno do sono. Por último, passaram a considerar as alterações do transtorno comportamental do sono na fase de movimentos oculares rápidos (Rapid Eye Movement ou REM, fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vividos) e o síndrome de pernas inquietas.

Diferentes classificações das perturbações do sono

Como é possível notar, cada sistema de classificação é diferente, definindo critérios de inclusão distintos. Mas, o certo é que o profissional da saúde deve realizar uma avaliação sistemática para poder identificar o diagnóstico o mais preciso possível e orientar-se conforme os sistemas de classificações.

Como evitar os problemas com o sono?

Algumas recomendações para todas as idades como medidas para conciliar e manter o sono:

 

  • Use o quarto apenas para dormir.
  • O ambiente da habitação deve ser calmo, silencioso, limpo e arrumado.
  • A temperatura ideal do quarto deve ser entre 18 e 21 ºC.
  • Pinte o quarto com cores neutras.
  • Durma na escuridão, se for necessário, use uma máscara.
  • Escolha um colchão médio e firme, e evite almofadas altas e de penas.
  • Evite colocar no quarto televisores, computadores, rádio e telemóveis.
    • O ideal seria que com pelo menos duas horas antes do horário normal de sono, evite usar dispositivos eletrónicos com emissão de luz.
    • Alterar a emissão de luz de dispositivos eletrónicos, de luz azul e verde para amarelo.
  • Evite comidas e bebidas estimulantes como café, chocolate, refrigerantes.
  • Se realizar trabalhos em turnos noturnos tome as bebidas estimulantes no início do turno sem abusar.
  • Jantar duas horas antes de ir dormir.
  • Realize exercício físico.

Quantas horas necessitamos dormir?

Para além das recomendações anteriores deve dormir as horas necessárias conforme cada etapa de vida:

  • Recém-nascidos, 14-17 horas
  • Dos 4 a 11 meses, 12-15 horas
  • De 1 a 2 anos, 11-14 horas
  • Dos 3 a 5 anos, 10-13 horas
  • De 6 a 13 anos, 9-11 horas
  • Adolescentes, 8-10 horas
  • Adultos, 7-9 horas
  • Adultos > 65 anos, 7-8 horas

Por último, tenha em atenção que se dormir a sesta , esta deve ser no máximo de 20-30 minutos.

Os problemas do sono são comuns na nossa sociedade. Logo. devemos socialmente promover o sono como um direito. Durma bem esta noite! Se habitualmente tem problemas com o sono, aconselhe-se com um profissional de saúde!

Referências

American Sleep Disorders Association (1997). International classification of sleep disorders, revised: diagnostic and coding manual. Rochester, Minn: American Sleep Disorders

APA (2002). DSM-IV-TR. Manual de Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais, Texto Revisto, 4ª Edição. Lisboa: Climepsi Editores.

 

APA (2014). DSM 5. Manual de Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais, 5ª Edição. Lisboa: Climepsi Editores.

Merino-Andreu M, Álvarez-Ruiz de Larrinaga A, Madrid-Pérez JA, Martínez-Martínez MA, Puertas- Cuesta FJ, Asencio-Guerra AJ, et al. Sueño saludable: evidencias y guías de actuación. Documento oficial de la Sociedad Española de Sueño. Rev Neurol 2016; 63 (Supl 2): S1-27.

Muller, M., Guimarães, S. (2007). Impacto dos transtornos do sono sobre o funcionamento diário e a qualidade de vida. Estudos de Psicologia, Campinas, 24(4), p. 519-528

Thorpy M.J. Classification of Sleep Disorders. Neurotherapeutics. 2012;9:687–701. doi: 10.1007/s13311-012-0145-6.